sábado, março 12, 2011
sexta-feira, março 11, 2011
Culinária
Andava há tempos a pensar no assunto, sempre que como convidado me apresentavam este pitéu; apesar de, por definição, se destinar a mero aconchego, eu, ele e umas tostinhas ficávamos ali juntinhos em tamanha felicidade, que muitas vezes superava a da oferta subsequente.
Pois bem, vai ser este fim de semana que pela primeira vez aqui em casa vamos ter paté de atum e delicias, obra e graça, não da habitual cozinheira, tão pouco de qualquer Espírito Santo, mas sim aqui do “je”.
Correndo bem a empreitada talvez aqui venha a parar testemunho (leia-se foto) para a posteridade.
quarta-feira, março 09, 2011
Sublinhados - IV
sábado, março 05, 2011
quinta-feira, março 03, 2011
Constatação

Desculpa, é talvez a palavra que mais gosto de ouvir, e é, ao mesmo tempo, e em determinadas situações, uma das mais dificeis de dizer.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
reticências
"As reticências são os três primeiros passos do pensamento
que continua por conta própria o seu caminho."
(Mário Quintana)
sábado, fevereiro 26, 2011
Recordações - V

média de 14 no 1º ano do ciclo e de 12 no último ano do secundário... descida de 2 valores em 7 anos...concluindo, um aluno mediano!
sexta-feira, fevereiro 25, 2011
Pequeno Breviário Shawiano
Bernard Shaw
Não há amor mais sincero que o da comida.
A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm.
Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.
Quem nunca esperou não pode desesperar nunca.
Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra.
O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade.
Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo.
Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o Governo e a opinião pública lhes permitem fazer.
(Jogo de xadrez) É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo.
O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher.
O martírio... é a única maneira de ganhar fama sem ter competência.
Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele.
Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus.
Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem.
Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões.
Nunca espero nada de um soldado que pensa.
Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha.
Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro.
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
Sublinhados - III
Baptista-Bastos
Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.
Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.
Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.
As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.
Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.
Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?
Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.
Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:
— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.
E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.
Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.
Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.

